24 de maio de 2012

CASAS OU CAIXAS?

Será que sou apenas eu que não entendo de tendências, design e arte, ou é verdade que o reinado da platibanda na arquitetura contemporânea está tornando as casas cada vez mais próximas de caixas.


Foi-se o tempo em que ter uma casa com telhado em meia-água ou duas águas era critério de distinção social. A tendência agora se inverteu. O negócio é esconder o telhado.

Particularmente, não me adapto bem com a ideia. Para mim, casa deve ter cara de casa, como sinônimo de lar, acolhimento e aconchego. Casa mesmo é aquela com formato quase arquetípico, que a criança aprende a desenhar ainda na pré-escola, com telhado aparente, janela, porta, jardim e árvore.

Acho que a padronização inconsciente da cultura humana tem se expressado na arquitetura contemporânea. Hoje o que distingue uma casa da outra, tem sido os detalhes da fachada ou o do ajardinamento, porque há ruas em que se encontram apenas essas tais caixas de alto padrão enfileiradas dos dois lados e, nada mais.

Gosto daquela ideia da casa da infância, dotada de humanidade. Aquela casa que não aspira a perfeição, que dá vazão às paixões humanas, que é acolhedora, protetora e serve de refúgio. Com o fechar de uma cortina, encerra-se o mundo externo.

Diria o psicanalista que estou descrevendo o ventre materno e não uma casa, mas a identificação onírica entre os dois é evidente, como atesta Gaston Bachelard:

“Desde que nos orientemos na sombra, longe das formas, esquecendo a preocupação com as dimensões, não podemos deixar de constatar que as imagens da casa, do ventre, da gruta, do ovo e da semente convergem para a mesma imagem profunda.”

E se as casas sem telhado parecem muito com caixas, o que são os edifícios, senão empilhamentos de caixas habitáveis.

Podemos não perceber, mas estamos vivendo empilhados uns nos outros e também nos locomovemos embalados em caixas automóveis.

Ao que parece, estamos passando por um progressivo movimento de autoencaixotamento, seja porque o aumento da densidade demográfica exige a otimização do espaço-tempo, seja porque a procura por espaço provoca o aumento do seu preço segundo a lei de mercado.

Pode parecer nostalgia, mas tenho a esperança de um dia voltar a viver numa casinha à moda antiga, com telhado aparente, janela, porta, jardim e árvore.

3 comentários:

Anônimo disse...

Sobre as casas com telhados, que também gosto pela sensação do aconchego e também sonho com um futuro que mistura com o passado, de ter minha varandinha para sentar... tenho um amigo que disse algo a respeito, que completaria estas divagações... "o que fazer num dia de chuva, quando se olha para fora das casas e não se tem o telhadinho para ver a chuva gotejar e cair? Estamos dentro de uma vitrine? uma loja?" Abraços, Cris D. V.

CALÇADA LEGAL, um caminho de respeito ao próximo! disse...

Darwin concordo com você que realmente temos visto uma excessiva proliferação de caixas... a grande maioria com pouquíssimo equilíbrio e harmonia.
Acho que como tudo na vida existe os modismos mas vejo na melhor forma um trabalho belíssimo de sínteses. Assim como só o artista que domina muito bem arte acadêmica pode fazer um bom abstrato pois conhece muito de equilíbrio e domina as formas, isto também acontece na arquitetura.....
Creio que esta tendência vem para ficar cada vez mais pois nosso mundo está tão cheio de informações em todas as áreas que cada vez queremos menos. Menos coisas para limpar menos coisas para cuidar e muuuuita natureza para compensar. Aí para mim são os melhores projetos. Aqueles que te transportam para a natureza num abrir de janela em sua plenitude e te recolhem como útero quando quiser. Esta é a grande conquista do mundo moderno que podemos ter muito em pouco para poder ter mais tempo para o essencial. Os relacionamentos humanos, a natureza, as causas sociais, as leituras as pesquisas, em fim como já dizia o grande arquiteto Mies Van der Roe: Menos é mais.

Gosto muito do seu blog mas não tenho todo o tempo que gostaria para curtir mais. Abraço Arq. Ruth Borgmann

Darwinn Harnack disse...

Ruth, obrigado pelo seu comentário. Respeito muito o seu ponto de vista profissional e também filosófico a respeito de "quando o menos valoriza a essência dos aspectos da vida". Um abraço!