25 de julho de 2012

SOBRE ADORNOS SOCIAIS



















Basta dar um passeio despretensioso pelas ruas da cidade ou circular por uma festa com os olhos atentos, para notar como as pessoas gostam de se enfeitar com colares, correntes, brincos, aneis, pulseiras, óculos, gargantilhas, piercings, alargadores, implantes e tatuagens.

O uso de adornos corpóreos faz parte da cultura-mundo, ou seja, trata-se de valor presente desde tempos imemoriais e nos mais remotos grupos sociais do globo. O que mudam são as espécies e técnicas de enfeites, mas todo grupamento humano os utiliza.

Na grande aldeia dos homens pós-modernos, existem enfeites (quase) despropositados, mas há outros que procuram transmitir uma mensagem expressa como é o caso de algumas tatuagens ou mesmo implícita, como é o caso das joias de alto valor econômico.

No caso das tatuagens, as variações são tantas quantas as personalidades existentes sobre a face da Terra. Vê-se desde frases do tipo “pára-choque de caminhão” até demonstrações de fé religiosa, protestos de revolta e ódio, juras de amor, idolatria, comerciais de marcas famosas, nome dos filhos, dos pais ou do namorado, imagens tribais, eróticas, caveiras, dragões, tigres, seres mitológicos e tudo mais que a imaginação pode proporcionar.

Por outro lado, em se tratando das joias de alto valor econômico, além do elemento estético, podem vir a ser utilizadas como mensagem de poder financeiro e também de pertencimento a determinado grupo ou classe social.

Essa espécie de mensagem implícita de diferença social também pode ser vista no ato de aquisição de bolsas femininas, automóveis, motocicletas de luxo e, claro, roupas.

Há quem não consiga sair de casa sem estar etiquetado, ou seja, com as logomarcas ou siglas de grifes estampadas no peito, na bolsa, nos pés e demais partes do corpo. Ao que parece, certas pessoas sentem-se inferiorizadas ou inseguras se não tiverem marcas que falem por elas ou as apresentem ao público em geral.

É como se preferissem ficar ocultos atrás dos escudos das marcas, com medo de rejeição de sua essência humana ou de permanecer no lugar-comum. Há um desejo narcisista de diferenciar-se, de superar a massa dos iguais, de receber atenção especial.

Nada contra o uso de grifes ou marcas que podem também representar a reconhecida qualidade de um produto. Porém, a dependência psicológica e inconsciente das marcas é que não se mostra saudável, principalmente em relação às crianças já educadas desde a mais tenra idade com a supremacia desse tipo de valor.

No livro “Darwin vai às compras”, o Professor de Psicologia Evolucionista Geoffrey Miller explica detalhadamente como as técnicas utilizadas pelo marketing seduzem batalhões de consumidores (muitas vezes iludidos) ávidos por serem socialmente bem aceitos e poderem atrair parceiros sexuais e amigos através da aquisição de determinados produtos ou serviços.

Não é por acaso que vemos a propaganda do desodorante masculino “Axe” que, ao ser utilizado, atrai mulheres rastejantes que surgem do nada, bem como a mensagem publicitária de que o Ford Fusion “é o carro para quem já chegou lá”. Trata-se de mecanismo que impulsiona a roda do consumo.

Contudo, um mínimo de lucidez, discernimento e consciência é aconselhável para viver de forma saudável em um ambiente inundado por mensagens publicitárias desde o momento em que acordamos até o que voltamos a dormir, a fim de se evitar a ideia distorcida de que o consumo desenfreado é o caminho para a felicidade.

18 de julho de 2012

O VÍCIO DA NEUTRALIDADE



















Não sou daqueles que recita passagens bíblicas para todas as ocasiões, mas há um trecho conhecido do Apocalipse de São João (3: 15,16), do qual frequentemente me recordo e que diz exatamente o seguinte: “Conheço as tuas ações, que não és nem frio nem quente. Quisera eu que fosses frio ou quente. Assim, porque és morno, e não és nem quente nem frio, vou vomitar-te da minha boca.”

Pois bem, foi-se o tempo em que a postura de neutralidade era admissível na vida política e social. Hoje, para receber a qualidade de “cidadão” é imprescindível participar, opinar, formar convicção e, quando possível, auxiliar na tomada de soluções para os problemas da comunidade e da sociedade em geral.

Ao que parece, o receio de desagradar ou criar alguma antipatia que possa influenciar negativamente nos interesses privados, freia a conduta daqueles que, por sua posição privilegiada, deveriam justamente colaborar ativamente em prol da sociedade em geral.

Nota-se com facilidade que o medo impera de forma insana, como se todos fossem viver para sempre carregando o peso de um patrimônio a ser protegido a qualquer custo.

Particularmente, prefiro ter em mente o conteúdo do belo discurso de Steve Jobs, que destacou a importância de relembrarmos da nossa mortalidade e de que já estamos nus. Não há motivo para não seguirmos nossos corações e, assim, manifestarmos nossas convicções e posicionamentos.

Nos momentos de crise moral, quando os valores humanos são subvertidos ou solapados, a omissão é sempre a pior conduta. Silenciar é favorecer quem age à margem da lei e arranha o interesse público. Fechar os olhos é aderir a um conforto que somente favorece interesses particulares. Precisamos, contudo, enxergar além de nossos próprios umbigos.

José Ingenieros com sua lucidez peculiar, já alertava no início do Século XX que em certos momentos “nenhum clamor popular é percebido, não ressoa o eco de grandes vozes animadoras. Todos se apinham em torno dos mantéis oficiais para alcançar alguma migalha da comida. É o clima da mediocridade.”

É bem verdade que a vida é feita de erros e acertos, porém é preferível assumir algum posicionamento do que se omitir em prejuízo de toda a sociedade. A omissão e a neutralidade da sociedade constituem postura conservadora que pertence a um passado inglório que muito mal causou ao Brasil e que, justamente por essa razão, merece ser revista.

11 de julho de 2012

MANIFESTO AOS ELEITORES

Quando expirou o prazo para o registro das candidaturas ao pleito municipal, pensei inicialmente em redigir um manifesto dirigido aos candidatos, pedindo uma campanha política fundada essencialmente na apresentação de propostas coerentes, sérias e honestas.

No entanto, logo depois percebi que os meus pedidos e sugestões devem ser direcionados a quem realmente detém poder neste momento, ou seja, o público eleitor, verdadeiro titular do poder em um Estado Democrático.
Portanto, em vez de dirigir-me aos mais de cento e sessenta candidatos a vereador e aos três candidatos a prefeito(a), falo aos eleitores.
Em primeiro lugar, é necessário ter a perfeita noção da responsabilidade de quem tem o direito-dever de votar, ou seja, de escolher quem representará o povo pelos próximos quatro anos.
 Não se pode mais ignorar a importância de um voto consciente, no sentido de que o eleitor conheça as propostas do candidato, sua vida pregressa, antecedentes de improbidade administrativa, qualificação profissional para a função e experiência administrativa.
Estudemos, pois, a vida daqueles que pretendem figurar como nossos representantes, evitando que novos “Tiriricas” atinjam o objetivo de exercer uma função para a qual não estão qualificados, não sabendo sequer exatamente a essência de suas atividades.
Não podemos ter vereadores que não saibam que além de legislar, devem também fiscalizar os atos do Poder Executivo ou, no mínimo, permitir que algum colega interessado o faça.
Aqueles que pretendem ser legisladores precisam, ao menos, ter condições de ler e interpretar um texto corretamente, entendendo seu alcance e profundidade. Devem conhecer o básico a respeito da função legislativa e propor ações coerentes com a função que pretendem desenvolver.
Já os candidatos a Prefeito devem ter conduta ilibada, experiência administrativa e uma qualificação profissional mínima para o exercício de tão importante função pública.
Portanto, salvo melhor juízo, não se pode prestigiar a candidatura de quem já foi acusado e condenado pela prática de improbidade administrativa, ou seja, de desonestidade com o uso de recursos públicos.
Se na vida privada todos merecem ter uma segunda chance em caso de falhas, tal não ocorre na vida pública. Quem atenta uma vez contra os postulados de moralidade e honestidade no trato com a coisa pública, merece ser condenado ao ostracismo para deixar outros interessados demonstrarem que é possível administrar os recursos públicos de forma honesta e eficiente.
Assim sendo, eleitores destinatários destas linhas, a preocupação com o bom uso do voto é necessária. De nada adiantam as queixas emitidas contra os titulares de cargos públicos, se quem tem o poder de eliminar pretendentes indesejáveis não toma as medidas necessárias no momento certo.

4 de julho de 2012

NEM SEMPRE O CLIENTE TEM RAZÃO



Em um país no qual vereadores sem qualificação profissional ganham mais de sete mil reais mensais, enquanto professores pós-graduados recebem salários de novecentos e bem poucos reais, não se pode esperar que a educação esteja bem.

Porém, a crônica desta semana não tratará do problema da falta de valorização do professor no ensino público, mas sim do cuidado que deve ser tomado para que o ensino privado não seja desvirtuado.

Apesar de lecionar há mais de uma década em uma instituição de ensino superior que valoriza o professor e lhe concede todos os meios necessários para desenvolver o melhor trabalho possível, tenho observado fatos abomináveis ocorridos em outras academias.

Não há dúvida de que o ensino privado auxiliou valorosamente na democratização do acesso à informação e ao conhecimento, tendo disseminado unidades de ensino em locais que o Estado não conseguia atingir.

É através da educação de qualidade (pública ou privada), que cidadãos transformam suas vidas e melhoram a qualidade da vida de suas comunidades e da sociedade de modo geral.

Todavia, o que nem todos percebem é que a natureza do ensino privado é de um serviço “sui generis” posto à disposição do consumidor. É uma atividade na qual o cliente muitas vezes não tem razão alguma, pelo contrário, falta-lhe determinado conhecimento e, justamente por isso, está pagando para obter instrução que lhe permita acertar mais e melhorar como ser humano e profissional.

Justamente por essa razão, quando se replica indevidamente na relação professor-aluno, a lógica de que “o cliente sempre tem razão”, a conduta do professor fica cerceada e os resultados são desastrosos, tanto na formação do caráter do aluno-cliente, quanto no resultado final de sua formação profissional.

Assim sendo, quando o professor não pode avaliar livremente o aluno, não há verdadeira relação de ensino. Quando o professor é impedido de chamar a atenção do aluno que pratica o plágio nos seus trabalhos, não há verdadeira relação de ensino. Quando o professor não pode interromper um aluno que está colando, não há verdadeira relação de ensino. Quando o aluno sente-se no direito de levantar da sua carteira para agredir o professor é porque ruíram os valores que deveriam orientar a relação de ensino.

Não se pode permitir que o pacto da mediocridade domine a educação formal, ou seja, o professor não pode fingir que ensina enquanto o aluno finge que aprende. Há um relevante papel social a ser cumprido pelo professor, que deve receber autonomia para tal desiderato. Da mesma forma o aluno deve receber com postura ativa o método e o conteúdo propostos para o seu desenvolvimento.

Turmas de acadêmicos não são “fornadas”,tampouco produtos finais de um pacote ofertado ao público em geral, mas sim grupos de pessoas que devem passar por um efetivo processo de aprimoramento humanístico e técnico-científico.

Não existem atalhos fáceis. Somente com educação de verdade será possível descortinar um futuro com maior igualdade, respeito, fraternidade e liberdade para todos.


27 de junho de 2012

INVERSÃO DE PRIORIDADES

- O Dr. vai me desculpar, mas é que sou obrigado a fechar a delegacia quando vou ao banheiro, porque não tem mais ninguém aqui. Trabalho sozinho.

- Como assim? Você não tem uma secretária ou atendente, nenhum colega de trabalho?

- Que nada, aqui eu mesmo atendo os cidadãos, registro ocorrências, tomo depoimentos, faço os encaminhamentos e o que mais for necessário.

- Aliás, o Dr. tá vendo esse papel que estou usando para imprimir os boletins de ocorrência?

- Sim, por quê?

- Porque eu fui obrigado a comprar com dinheiro do meu bolso, caso contrário hoje não teria papel para atender a população. Falando em papel, também tive que comprar papel higiênico, pois também não tinha mais aqui na Delegacia.

Fecha aspas.

Já faz uma semana que tive essa conversa e até agora não consegui esquecer. Aqui não há ficção, estamos falando de uma realidade dura e cotidiana que demonstra o quadro pré-falimentar do Estado.

Aliás, a dificuldade financeira é tal que o Estado decretou um plano de corte de gastos com serviços terceirizados, aluguel de veículos, dentre outras despesas, mas que, aparentemente, não tem sido suficiente. Não é de hoje que o Estado tem se mostrado fraco e ineficiente perante as necessidades da população.

Uma ineficiência que se constata também no sistema penitenciário mal equipado, com falta de pessoal e que não atende a diversas disposições contidas na Lei de Execução Penal, especialmente a almejada reeducação do preso.

Uma ineficiência que se evidencia igualmente na educação, em que os professores precisam periodicamente entrar em greve para conseguir receber o mínimo necessário à sua subsistência, quase sempre sem atingir o objetivo.

Mas o que faz alguém que está em dificuldades financeiras? Quais providências toma aquele que não consegue pagar corretamente as suas contas e cumprir com os seus compromissos?

A resposta é fácil, deve diminuir despesas, evitar o luxo, o supérfluo e o desnecessário. Não é preciso consultar nenhum especialista ou guru para se atingir esta conclusão. Basta o bom senso.

Nesse sentido, cabe questionar: o Estado precisa manter a estrutura de nada menos do que 36 (trinta e seis) Secretarias de Desenvolvimento Regional (SDRs)? A utilidade das SDRs vai muito além da fidelização de cabos eleitorais regionais? O Estado não consegue direcionar recursos e agilizar projetos sem as SDRs? Não será este um luxo dispensável e que geraria relevante economia aos cofres públicos?

Ainda sobre os excessos com dinheiro público escasso, vale relembrar o recente episódio no Show de Paul McCartney, no qual a Secretaria de Turismo do Estado pagou inaceitáveis R$ 800.000,00 (oitocentos mil reais) a título de locação de 2 (dois) espaços para colocação de estandes de divulgação da SANTUR durante o show.

Ao que parece, na administração pública nem sempre uma reta é o caminho mais curto entre dois pontos. O surrealismo impera a ponto do mendigo poder comprar carro importado, comer caviar, viajar para o exterior e ainda emprestar dinheiro aos amigos.

21 de junho de 2012

ANIVERSÁRIO DE CRIANÇA




















Atualmente as festas infantis estão mais complexas e converteram-se em verdadeiros eventos sociais dos pais, parentes e amigos, contando com uma série de recursos, equipamentos e, logicamente, os custos relacionados a essas novas necessidades.

Não digo que seja uma novidade, mas os aniversários possuem temas definidos que agora orientam toda a decoração, inclusive louças (mesmo descartáveis), enfeites, lembranças e alimentos.

As mães cuidam dos filhos durante a festa, mas contam também com o auxílio de recreadores profissionais, os brinquedos e músicas são politicamente corretos, os fotógrafos acompanham cada passo das crianças, assim como os garçons acompanham os copos dos adultos.

Relembro que na época de minha infância os aniversários também eram comemorados, porém de modo muito mais amador e familiar.

Nos dias atuais a palavra-chave é: praticidade, ou seja, é muito mais prático pagar para que alguém forneça espaço, brinquedos, alimentação e decoração do que providenciar todos esses itens e depois ainda ter que limpar a sujeira, lavar a louça suja e desmontar a decoração.

Não tenho dúvida de que se trata de um caminho sem volta, pois é inegável que as festas profissionais partiram de uma boa ideia e têm suas virtudes, ainda mais numa época em que grande parte das famílias passou a viver em apartamentos.

Porém, talvez por mero romantismo salpicado de nostalgia, eu seja obrigado a confessar que gosto mais das festas domésticas, pequenas, familiares e íntimas.

Lembro-me da época em que os encontros promovidos nos aniversários privilegiavam o convívio das vovós com os netos e destes com alguns poucos coleguinhas de escola, quando também as tias faziam os salgados e doces, os primos brincavam de esconde-esconde sujando suas roupas de terra e suor e as meninas ficavam na sala com suas bonecas.

Mesmo durante as festas havia “bullying”, mas ninguém sabia que era errado ou imoral e sobrevivemos muito bem a tudo isso. Os pais eram condescendentes e as crianças geralmente se perdoavam.

E os presentes? Nas festas de hoje, os presentes são coletados por pessoas treinadas e estrategicamente posicionadas na entrada, mas antigamente os presentes eram entregues pelos convidados diretamente para as crianças, que abriam na frente de todos naquele mesmo momento, o que era sempre uma incerteza de reação, principalmente se fosse um par de meias ou uma cueca.

A par das diferenças trazidas pela evolução dos costumes sociais, o que importa mesmo é o calor humano e a sinceridade de sentimento entre as pessoas que se reúnem para celebrar o crescimento de seus filhos, parentes e amigos, pouco importando se numa pequena festa doméstica ou no bufê mais luxuoso da região.

15 de junho de 2012

CECÍLIA MEIRELES





















Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.

E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente,
Há tanto tempo (...)

(Trecho de "Cântico)

13 de junho de 2012

O ABSURDO DOS SONHOS


























Do ponto de vista etimológico, a palavra “absurdo” provém do latim absurdus, que indica aquilo que não se quer ou não se pode ouvir, ou seja, aquilo que não se toleraria sequer ouvir, por ser inacreditável, irracional ou impossível.

Mas qual o maior reino do absurdo? Talvez seja realmente o mundo dos sonhos e dos sonhadores, que não encontra limites, tampouco paralelos na realidade concreta e cotidiana.

Por mais racionais que sejamos, admitimos em sonho verdades impensáveis, como viver no topo de um prédio cercado por jacarés urbanos ou bater os braços como asas para levantar voo, debater política com um tigre e tantas outras possibilidades e histórias que cada um de nós já vivenciou e pode voltar a vivenciar a cada nova noite de sono.

O que para muitos pode soar como mera bobagem que deve ser simplesmente esquecida, foi objeto de estudo por pesquisadores respeitados e revolucionários como Sigmund Freud e Carl Gustav Jung.

No mundo das artes plásticas, as representações muitas vezes simbólicas que são trazidas nos sonhos, assumem importância de relevo a ponto de terem sido eternizadas por centenas de artistas em obras de alto valor econômico.

Marc Chagal, por exemplo, chegou a pintar um pássaro humanoide que comandava o picadeiro de um circo (O Prestidigitador, 1943).

Pode-se citar ainda Henri Rosseau, René Magritte, Paul Delvaux e tantos outros, nunca podendo se esquecida a figura peculiar de Salvador Dali, grande ícone do Surrealismo que tentou aproximar consciente e subconsciente de modo quase científico em telas ricas em símbolos recorrentes como muletas, rochas, relógios e nuvens.

Talvez o sonho seja apenas um meio de exteriorização de desejos reprimidos e impossíveis ou uma forma turva e embaralhada de funcionamento do cérebro, porém, pode também representar um modo de comunicação do subconsciente que, por sua vez utiliza um padrão diferente de linguagem daquele que fomos educados para interpretar. Alguém duvida?

7 de junho de 2012

CONTRATO DE NAMORO

Foi-se o tempo em que o pressuposto fundamental e inafastável de uma relação afetiva era a confiança recíproca. Agora existem os relacionamentos baseados na confiança, mas há também aqueles que são formalizados justamente a partir de característica oposta, ou seja, a da desconfiança.

Digo isso, porque são inúmeros os casos de pessoas que acreditavam estar apenas namorando, quando na verdade, mesmo sem saber, já haviam dado um passo a mais, o da união estável.

Ao contrário do que muita gente pensa, é possível sim existir união estável mesmo sem a coabitação, ou seja, sem que as pessoas estejam residindo sob o mesmo teto, o que deixou mais tênue, em alguns casos, a linha divisória que a separa do simples namoro.

Há quem defenda, inclusive, a figura intermediária do “namoro qualificado”, para distinguir o namoro sério da união estável.

A partir dessa insegurança jurídica, diversos escritórios de advocacia passaram a produzir o chamado “contrato de namoro”, no qual as partes contratantes declaram expressamente que não convivem com o objetivo de constituir família e que este será o seu posicionamento até que assinem outro documento desconstituindo o contrato de namoro.

Embora seja um mecanismo formal possível e um elemento de prova que pode vir a ser utilizado em uma discussão judicial sobre a natureza do relacionamento, entendo particularmente que não é porque estou denominando uma maçã de laranja, que ela se tornará uma laranja.

Além disso, poderia até existir um namoro no momento da firmatura do contrato que, meses ou anos depois converteu-se espontaneamente em união estável.

Em outras palavras, se for possível provar que uma relação afetiva é pública, duradoura e com objetivo de constituição de família, não será o contrato de namoro por si só, que descaracterizará a relação de união estável.

Por essas e outras, vale mais viver espontaneamente e enfrentar os possíveis problemas de relacionamento que surgirem, do que preocupar-se demasiadamente com formalismos que se sobreponham aos sentimentos ou que elevem a preocupação patrimonial acima das questões humanas.

3 de junho de 2012

1 de junho de 2012

REALIDADE?







































Às vezes tenho a impressão de que a realidade é uma certeza inatingível. E se isso for certo, nada mais é.

30 de maio de 2012

O GOSTO DO SUBSOLO



Há algum tempo tive o prazer de conhecer o Maison Nerudiano em Santiago do Chile, um restaurante com espaço subterrâneo para declamação de poesias do Pablo Neruda e shows de Jazz.

Quando estava naquela ampla sala inferior, lembrei-me claramente que desde menino gostava de me esconder embaixo da cama, onde ficava por horas a fio, calado, sem precisar conversar com ninguém. 

Ali, sozinho, debaixo da cama, estava o meu microcosmo infantil, um universo particular, um submundo próprio criado pela imaginação fantasiosa daquela idade.

Dessa mesma época, relembro do desejo de ter um espaço no subsolo que fosse só meu, uma espécie de porão secreto, onde pudesse permanecer alheio a tudo e, ao mesmo tempo, protegido do mundo exterior.

Essa ideia de proteção não ocorre por acaso, afinal, existirá lugar mais protegido do que sob a terra? Os bunkers mais seguros são construídos no subsolo, inclusive para fins de prevenção a ataques nucleares.

Alguns poderiam adjetivar essa preferência infernal (subterrânea) como sombria ou melancólica, porém, o sabor psicológico desse tipo de lembrança vai muito além disso. 

O anseio de proximidade com o subterrâneo é muito mais uma vontade de introspecção, de busca por si mesmo e de depuração da alma.

Aliás, desde a Idade Média os Alquimistas proclamavam visita interiora terrae, retificandoque invenies occultum lapidem, como meio de busca do homem superior (Pedra Filosofal) e da sociedade aperfeiçoada.

Portanto, símbolos como a caverna, o porão, o subsolo, Jonas no ventre da baleia e o crânio vazio, são metáforas do autorrecolhimento que podem funcionar como um lenitivo para a alma e um meio de recuperação e superação das asperezas e dificuldades do mundo real.

No subsolo as imagens se confundem, as pessoas se encontram, as emoções parecem arcaicas, o silêncio é o único amigo e o gosto final é sempre doce.

24 de maio de 2012

FEIRA DE ADOÇÃO NO PRÓXIMO SÁBADO (26.05)

CASAS OU CAIXAS?

Será que sou apenas eu que não entendo de tendências, design e arte, ou é verdade que o reinado da platibanda na arquitetura contemporânea está tornando as casas cada vez mais próximas de caixas.


Foi-se o tempo em que ter uma casa com telhado em meia-água ou duas águas era critério de distinção social. A tendência agora se inverteu. O negócio é esconder o telhado.

Particularmente, não me adapto bem com a ideia. Para mim, casa deve ter cara de casa, como sinônimo de lar, acolhimento e aconchego. Casa mesmo é aquela com formato quase arquetípico, que a criança aprende a desenhar ainda na pré-escola, com telhado aparente, janela, porta, jardim e árvore.

Acho que a padronização inconsciente da cultura humana tem se expressado na arquitetura contemporânea. Hoje o que distingue uma casa da outra, tem sido os detalhes da fachada ou o do ajardinamento, porque há ruas em que se encontram apenas essas tais caixas de alto padrão enfileiradas dos dois lados e, nada mais.

Gosto daquela ideia da casa da infância, dotada de humanidade. Aquela casa que não aspira a perfeição, que dá vazão às paixões humanas, que é acolhedora, protetora e serve de refúgio. Com o fechar de uma cortina, encerra-se o mundo externo.

Diria o psicanalista que estou descrevendo o ventre materno e não uma casa, mas a identificação onírica entre os dois é evidente, como atesta Gaston Bachelard:

“Desde que nos orientemos na sombra, longe das formas, esquecendo a preocupação com as dimensões, não podemos deixar de constatar que as imagens da casa, do ventre, da gruta, do ovo e da semente convergem para a mesma imagem profunda.”

E se as casas sem telhado parecem muito com caixas, o que são os edifícios, senão empilhamentos de caixas habitáveis.

Podemos não perceber, mas estamos vivendo empilhados uns nos outros e também nos locomovemos embalados em caixas automóveis.

Ao que parece, estamos passando por um progressivo movimento de autoencaixotamento, seja porque o aumento da densidade demográfica exige a otimização do espaço-tempo, seja porque a procura por espaço provoca o aumento do seu preço segundo a lei de mercado.

Pode parecer nostalgia, mas tenho a esperança de um dia voltar a viver numa casinha à moda antiga, com telhado aparente, janela, porta, jardim e árvore.

17 de maio de 2012

CÓDIGO DA EXPLORAÇÃO FLORESTAL

Como você agiria se sonhasse em ser um político de expressão nacional e, depois de eleito, surgisse um projeto de lei que viesse a lhe proporcionar muito retorno financeiro para seus negócios pessoais e, de quebra, ainda pudesse garantir apoio para a sua futura reeleição?

É partindo desse tipo de pressuposto (interesse particular), que a proposta do novo Código Florestal ou pior, “Código da Exploração Florestal”, foi aprovada no Senado, com alterações gravíssimas e impactantes.

É evidente que na redação final dessa norma, não foi observado o interesse público por parte dos fieis senadores, tampouco houve imparcialidade entre os interesses ruralistas e ambientalistas.

Agora resta a esperança de um veto substancial por parte da Presidência da República até 25 de Maio.

Mas é importante dar nome aos bois. Nesse cenário caótico de sobreposição de interesses particulares e financeiros, alguns senadores em especial, merecem ser citados: Kátia Abreu, Baliro Maggi (maior plantador de soja do país), Ivo Cassol e Paulo Piau Nogueira (relator do projeto).

Todos são senadores e empresários do agronegócio, mas, sobretudo, cegos peões das grandes corporações que pretendem o lucro a todo o custo, inclusive da biodiversidade, da qualidade de vida e do respeito ao meio ambiente.

Aliás, essa mesma bancada ruralista também tem combatido a proposta de emenda constitucional nº 438/2001, que prevê o confisco de propriedades rurais que se utilizam de mão-de-obra escrava, mas este não é o tema dessa crônica.

Lamentavelmente, caso o funesto Código não seja vetado, restará aos senadores em um futuro não muito distante, a possibilidade de dizer a seus netos ou bisnetos que contribuíram de forma direta para que o Brasil tenha terras nuas a perder de vista, mas não tenha toda a água de que precisa para irrigar os campos secos pelo sol e pela desertificação, bem como que ajudaram o Brasil a deixar de ser o país da biodiversidade, das matas preservadas e da riqueza natural.

Nossa espécie é mesmo arrogante. Achamos que somos proprietários da vida no planeta, que podemos eliminar indiscriminadamente toda e qualquer outra espécie que atravesse o nosso caminho (pois somos superiores e temos todo o direito) e que viveremos com recursos naturais ilimitados e eternos.

É, parece que somente depois que a última árvore tiver caído, o último rio tiver secado e o último peixe for pescado é que vamos realmente perceber que não podemos comer dinheiro.

Então, que pelo menos tenhamos a dignidade de não reclamar do futuro e das consequências de nossas ações irrefletidas, pois a natureza não será nossa algoz, aliás, nem precisa, pois continuamos a ser o nosso próprio lobo.

11 de maio de 2012

10 de maio de 2012

SERVIDÕES BIOLÓGICAS DA LINGUAGEM

Gaston Bachelard, em sua “Poética do Devaneio”, disse que “o mundo é constituído pelo conjunto de nossas admirações.”

Isto é, primeiro o homem admira aquilo que ele encontra, depois analisa, classifica e cria uma palavra indicativa do objeto, através do uso da razão.

Com o artifício da palavra, o gênero humano consegue denominar tudo o que os seus sentidos lhe mostram, atribuindo, inclusive, sexo a vegetais, animais, objetos inanimados ou fenômenos naturais. Para o homem, o mundo se divide em masculino e feminino.

Assim sendo, existem ossos masculinos como o fêmur, o rádio e o crânio, mas também femininos, como a tíbia, as falanges e a mandíbula.

Existem árvores com sexo masculino, como o Baobá, o Cedro e o Pinheiro. Por outro lado, há também as femininas como a Canela, a Imbuia e a Araucária.

Há animais com nomes masculinos como o Morcego, o Gambá e o Tamanduá, mas existem também os com denominações femininas como a Onça, a Capivara e a Cobra.

Mas quem decidiu que uma determinada árvore teria nome masculino e outra, nome feminino? A árvore, em gênero, tem sexo? E os ossos? E as espécies animais? Por que tudo no mundo deve ser macho ou fêmea?

É possível que a linguagem seja dividida nessa matriz dual, porque replica nos objetos e demais seres, aquilo que caracteriza e divide a humanidade, enquanto parcela do mundo animal (animus e anima).

Mas em alguns casos, uma palavra masculina não encontra liame sexual adequado com o objeto designado, como por exemplo a palavra “calor” que, na língua portuguesa é escrita no masculino, mas, segundo a sensibilidade do poeta, deveria ter sido designada no feminino.

Ora, calor é mulher, é acolhimento, é amparo, colo, é a sensação primordial que acompanha o ser humano antes mesmo de nascer no frio masculino deste planeta, tanto que no francês, “calor”, é feminino (la chaleur) e, se é necessário dar sexo a todo o mundo sensível, no caso do calor, ele deveria ser ela.

Já no caso da “água” houve acerto na atribuição de sexo, pois a água é toda feminina, líquida, mutante e imprecisa. Henri Bosco demonstrou o aspecto feminino da água em um mergulho no lago:

“Somente ali eu conseguia às vezes libertar-me do mais negro de mim mesmo, esquecer-me. Meu vazio interior se preenchia…A fluidez do meu pensamento, onde até então eu tentara encontrar a mim mesmo, parecia-me mais natural e assim menos amarga. Por vezes eu tinha a sensação, quase física, de um outro mundo subjacente e cuja matéria tépida e móvel, aflorava sobre a extensão melancólica de minha consciência. E então, como a água límpida das lagoas, ela estremecia.”

Da mesma forma, acertou quem chamou “maçã” de mulher. Nos seus “Sonetos a Orfeu”, Rilke trata do assunto:

"Ousai dizer o que chamais de Maçã.
Essa doçura que primeiro se condensa
Para, com uma doçura erigida no gosto,
Chegar à claridade, ao despertar, à transparência,
Tornar-se uma coisa daqui, que significa o sol e a terra.”

Ao que parece, assim como ocorre com os transgêneros humanos, que não possuem o corpo adequado à sua psique, também parte dos elementos do mundo sensível recebeu designações que não guardam consonância com a sua essência ontológica e, principalmente, poética.

5 de maio de 2012

ACRIANÇAMENTO

Concordo com o Rubem Alves quando ele diz que, em vez de entender a criança como um ser limitado, que precisa ser educado e instruído, deveríamos vê-la também como um estado existencial precioso e que poderia ser resgatado pelo homem dito “adulto” sempre que sentir-se esgotado ou desanimado com a realidade.

Esse retorno à essência de criança não significa uma infantilização, mas sim um desejo de voltar a sentir-se igual aos demais, de despojar-se dos preconceitos, rotulações e etiquetas ilusórias impostas pela (contra-)cultura contemporânea.

Nietzsche foi um filósofo-criança e mantém a sua atualidade, justamente por ter assumido essa postura essencial. Na sua multicitada obra “Assim Falou Zaratustra”, ele demonstra que também se fazia criança para pensar:

“Mudei-me da casa dos eruditos e bati a porta ao sair. Por muito tempo a minha alma assentou-se faminta à sua mesa. Não sou como eles, treinados a buscar o conhecimento como especialistas em rachar fios de cabelo ao meio. Amo a liberdade. Amo o ar sobre a terra fresca. É melhor dormir em meio às vacas que em meio às suas etiquetas e respeitabilidades.”

Mas o acriançamento é também a vontade de reencontrar-se com o novo, com os sabores mágicos, os lugares fantásticos, as pessoas gigantes, os cheiros intrigantes e as pessoas interessantes, pois é assim que a criança vê o mundo.

É o propósito de livrar-se da preocupação, da culpa, da pressa e da pressão do tempo, do trabalho e da família. É a visualização do mundo pelos olhos do poeta, de quem redescobre ou reinventa um animal, uma palavra ou um objeto.

É questionar os motivos e as razões de cada coisa, é filosofar pela raiz, é ver o mundo de ponta-cabeça ou como em um negativo de fotografia.

É buscar o encantamento com as coisas simples da vida e o contentamento fácil com um olhar amigo, um sorriso, um abraço ou uma lembrança.

É a ideia de redesenhar uma vida que se acinzenta diante das dificuldades que nós mesmos nos impomos uns aos outros, de renovar a respiração pesada do ar tragado com dificuldade, de erguer o rosto diante das adversidades e de relaxar o semblante carregado.

Quem sabe a infância não seja apenas parte do passado, mas sim de um futuro que está atrás de nós, que nos integra e que pode vir a fazer parte do que ainda poderá vir a ocorrer.

O NEÓFITO (GUSTAVE DORÉ)

22 de abril de 2012

SOLIDÃO COLETIVA


É comum ouvir-se que as pessoas, mesmo imersas em oceanos de pessoas no seu cotidiano, sentem-se progressivamente solitárias nos dias atuais.

Disso se pode concluir que o remédio para a solidão, não é o mero convívio com outros da mesma espécie, mas sim a forma de relacionamento interpessoal.

Quando se nota que ninguém está se importando com os seus sentimentos ou seu bem-estar, pode-se estar acompanhado de milhares de pessoas que a solidão persistirá, o que tem sido agravado com o passar do tempo pela ruína do modelo de afetividade familiar e pelo desenvolvimento da moral individualista própria do sistema capitalista neoliberal.

Para quem não a sente, a solidão é apenas mais uma palavra, porém, o mesmo não ocorre para aqueles que a tem como companhia diuturna e indesejada.

Não é à toa que a solidão é tema frequente para a sensibilidade do poeta. Alceu Valença foi um dos que cantou as mazelas da solidão, em uma canção homônima, que contém o seguinte trecho:

A solidão é fera, a solidão devora,

É amiga das horas, prima-irmã do tempo,

E faz nossos relógios caminharem lentos,

Causando um descompasso no meu coração.

Particularmente, costumo pensar que gosto da minha própria companhia. É bem verdade que já estive brigado com ela, mas hoje me considero um bom amigo meu, assim como o Frejat quando canta a música “Tão Longe de Tudo”, que foi belamente desenhada com os seguintes versos:

Solidão amiga do peito

Me dê tudo que eu tenha por direito

Me diga, me ensina

Ao dormir não sinto medo

Há um sol, existe vida

Me trate com jeito

Eu tenho saída

Estar só pode também ser bom, assim como silêncio de que falei na crônica da semana passada, basta que se consiga atingir uma sincera paz com o seu eu interior e com o mundo externo.

5 de abril de 2012

CRÔNICA CONSTRUTIVA

Gostaria de dizer que a minha cidade está sendo bem administrada, que temos uma Câmara de Vereadores atuante, que cumpre com o seu papel e que trabalha de forma eficiente para a melhoria das condições de vida da população.

A verdade, porém, é que não posso fazer tais afirmações. A meu ver, nossa cidade não está sendo bem administrada e, quem deveria ter efetuado uma fiscalização efetiva neste último mandato, não o fez. Agora, em ano eleitoral, quem exerce funções públicas no executivo e no legislativo, tenta reverter o desgaste da imagem pública abalada pelo resultado da qualidade de sua atuação.

Porém, não basta criticar. Quem afirma que a coisa não vai bem, deve sugerir o que poderia ser feito para melhorar a cidade. Este é o espírito da crônica que segue.

É claro que este singelo e limitado texto não poderia comportar soluções para todos os problemas de Jaraguá do Sul, que somente se agravaram nos últimos anos. Contudo, algumas sugestões de melhorias simples podem auxiliar quem pretende, de boa-fé, candidatar-se a alguma função pública no próximo pleito eleitoral.

Um exemplo de melhoria simples, barata e eficaz, seria a instalação de sirenes junto às câmeras de vigilância instaladas em diversos pontos da cidade.

Essa sugestão da implantação de sirenes, segue exemplo bem sucedido adotado por Curitiba (PR), que acabou conseguindo reduzir sensivelmente a ocorrência de furtos, atos de violência e crimes em geral. Além de identificar os criminosos através das câmeras, as sirenes denunciam a ocorrência de ato ilícito, chamam a atenção de quem está por perto e dissipam atos de violência.

Sobre a questão da conectividade, Jaraguá do Sul poderia concluir a implantação do sistema de internet via antenas de Wi-Fi, disponibilizando sinal, ao menos, para pontos estratégicos da cidade, o que contribuiria com a educação e com a agilização de questões negociais. Esse projeto já existe, mas não foi concluído.

Na questão ambiental, deveria ser promovida uma maior fiscalização da ocupação irregular do solo, principalmente nas encostas, em vez de se promover apenas a regularização de ocupações ilícitas, como sempre foi feito. Esse tipo de medida é antipática e, por isso, dificilmente é praticada por administradores eleitos pelo voto popular. Todavia, se medidas como essas não começarem a ser implementadas, em muito breve teremos problemas sociais e ambientais ainda mais graves. A natureza não é o problema, nós, seres humanos, é que não a respeitamos.

Ainda com foco ambiental, ideias que privilegiem a adoção de projetos de captação e uso da água da chuva, principalmente nos prédios públicos, bem como o incentivo ao uso da energia solar, são medidas essenciais, considerando-se, especialmente, que é o setor público que deve dar o exemplo a ser seguido pelos cidadãos.

Jaraguá do Sul também não tem espaços de lazer dignos, parques públicos e áreas verdes (dotados de corredores de biodiversidade) com estrutura adequada, para que os munícipes frequentem, façam exercícios físicos e convivam com suas famílias. A vocação industrial da cidade deve conviver harmoniosamente com elementos que possibilitem a manutenção de um bom nível de qualidade de vida.

E assim poderia ser prosseguir na área da saúde (com a falta de postos de saúde e médicos), no trânsito caótico (que piora a cada dia com a adoção de medidas erradas e sem planejamento), da educação (que já teve conceito melhor por aqui) e demais setores que demandam olhar atento por parte de quem recebe salários para trabalhar em favor da cidade.

É claro que alguém pode dizer que isso ou aquilo já está projetado, ou que será feito em breve, ou ainda, que já está sendo feito. Esse tipo de discurso é sempre utilizado. Porém, a verdade é que, quem mora por aqui está vendo muito pouco ou quase nada além de promessas. Está dito!

29 de março de 2012

MILTON VIOLA FERNANDES

O nome que dá título a esta crônica pouca gente conhece, mas o “nome artístico” Millôr Fernandes, quase todo brasileiro conhece ou, ao menos, já ouviu falar.

Pois é, Millôr, que era jornalista, escritor, ilustrador, dramaturgo, fabulista, calígrafo, tradutor e inventor do frescobol, deixou estas paragens na última terça-feira.

Deve ter ido irradiar o seu talento e alegria em outros planos. Além das magníficas charges, muitas frases criativas e provocativas marcaram a cultura brasileira.

Brincando com as palavras como quem monta quebra-cabeças, dizia Millôr, por exemplo, que “feliz é o que você percebe que era, muito tempo depois.”

Com típico olhar de quem sempre está (re)descobrindo o mundo, Millôr percebeu que a “anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor.” Ou ainda, que: “o homem é o único animal que ri. E é rindo que ele mostra o animal que é.”

A sabedoria e a sensibilidade eram abundantes, mas peço vênia especialmente nesta crônica para apontar-lhe um erro, sim, um equívoco grosseiro cometido contra si mesmo.

Millôr errou feio ao dizer que “todo homem nasce original e morre plágio”. Isso pode até acontecer com a maioria, mas há alguns espécimes raros, como o próprio Millôr, que morrem tão originais quanto nasceram. Não há como imitá-los ou substituí-los.  

27 de março de 2012

22 de março de 2012

VAMOS ENFEITAR OS PRÉDIOS PÚBLICOS!

No início deste mês, uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, acolheu pedido de retirada de crucifixos e símbolos religiosos dos prédios que compõem a estrutura judiciária do Estado.


O Desembargador Cláudio Baldino Maciel fundamentou a decisão: “resguardar o espaço público do Judiciário para o uso somente de símbolos oficiais do Estado é o único caminho que responde aos princípios constitucionais republicanos de um Estado laico.” 


Realmente, nada mais sensato em se tratando de um Estado laico, que não sejam privilegiados símbolos desta ou daquela religião nos prédios públicos.


Isto não significa dizer que o Estado nega a Deus ou que a retirada dos crucifixos importa em desrespeito à religião católica. É, sobretudo, uma questão de respeito à diretriz de que o Brasil não é um país católico, como é o caso do Chile, por exemplo.


O Chile é um país católico, tem quatro poderes, a saber: legislativo, executivo, judiciário e eclesiástico.


Portanto, no Chile os símbolos cristãos fazem parte do modelo de Estado adotado. No Brasil isso não acontece.


Mesmo assim, o assunto não é tão simples.


Em 29 de Maio de 2011, o Conselho Nacional de Justiça – CNJ decidiu a respeito de quatro pedidos de retirada de símbolos cristãos de prédios públicos, entendendo que tais símbolos não ferem o caráter laico do Estado.


Na época, o jurista Católico Ives Gandra da Silva Martins, invocando o preâmbulo da Constituição Federal, no qual consta a expressão “sob a proteção de Deus”, advogou que a retirada dos símbolos seria inconstitucional.


Se é assim, cabe questionar: poderia um órgão público negar o pedido de inserção de símbolo de outra religião não cristã ao lado do crucifixo?


Entendo que não, pois o artigo 5º da Constituição Federal assegura tratamento isonômico (igualitário), inclusive no que tange à religião.


Pois bem, se não se consegue atingir um consenso, então que os símbolos religiosos sejam utilizados democraticamente nos prédios públicos. Ora, ao lado do crucifixo, deverão conviver harmoniosamente a Estrela de Davi, imagens dos Orixás, de Buda, de Krishna, de Maomé e até mesmo uma placa ao lado contendo: “não acredito”, para homenagear os ateus e uma contendo: “não nego a possibilidade”, para lembrar dos agnósticos.


Quem sabe assim todos se sintam contemplados e vivam felizes. Vamos enfeitar os prédios públicos!